A MEGA FAUNA: Já sonho com Ngorongoro V

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Domingo, Abril 17, 2005

Já sonho com Ngorongoro V

A foto que acompanhava o post não se encontra disponível desde
24/11/05, data em que este blog recebeu uma nada brilhante ameaça de
processo judicial por parte de Adam Silverman, proprietário do site
Trekearth, comunidade aberta na qual me encontrava registado e da qual
fui banido cega e agressivamente, à boa maneira americana. Não temo
ameaças da ditadura disfarçada. Tenho o maior respeito pelo trabalho
dos fotógrafos cujas imagens divulgo: e prova disso é a forma como os
revelo a quem me visita.


Maria,

Ontem comecei a escrever-te uma carta, mas fui vencido pelo sono e pela noite longa que tive aqui em Nairobi com os "gringos" como lhes chamas eles amanhã partem para a Europa.
Hoje fizemos ou vivemos a festa de despedida, por mais que esteja habituado às partidas durante uns dias vou sentir a falta deles principalmente do João (o que queria ficar por cá connosco) é um tipo alegre e sempre bem disposto, um verdadeiro apaixonado por África!
Chegamos ao hotel já tarde, fui até ao bar com o Jumah estivemos à conversa mas, outros pensamentos me tocam, por isso peguei no jipe e fui dar uma volta sozinho por Nairobi acabei por sair da cidade parei onde a escuridão da noite é apenas iluminada pela luz ténue da lua e das estrelas. Lembro-me do Saara, das minhas expedições no deserto com o Ahmed e com o Mohamed das nossas viagens nocturnas pelas dunas, sinto saudades de estar deitado no Erg ao som dos djembes pela noite dentro, que saudades da via láctea ali mesmo acima de mim...

Recordo-me da despedida de solteiro do Abdul, depois de um grande e longo jantar à boa maneira tuaregue com vários pratos de couscous, mechoui e tagines , nessa mesma noite deviam ser umas tantas da manhã agarramos nos Defender's saímos de Erfoud e fomos para Merzouga para o Erg Chebbi, estavam connosco uns amigos de Zagora também...metemos os jipes em U fizemos uma fogueira com uns bocados de madeira que andava no jipe do Mohamed e sentámo-nos ali, com o silêncio da noite com o fogo e com a lua que estava cheia nesse dia - é a fase da lua que mais gosto, o Ibrahim tinha trazido umas garrafas de Whisky daquele arranjado à sucapa através de um amigo, a Ahmed que é um amante de Ali Farka, ligou o rádio de um dos jipes e quase toda a gente se calou, Ali Farka é um dos músicos saarianos mais respeitados pelos tuaregues e mesmo pelos berberes, pelo que fala nas suas músicas, pela forma de tocar, porque é um dos melhores músicos africanos de sempre...

Haviam uns djembes espalhados pela malta e alguns tambores artesanais feitos com pele de dromedário, não havia vento a noite estava amena estávamos só de djalaba vestida em cima do corpo, de repente dão-me um copo do tamanho de um copo de galão cheio de Whisky eu gosto de whisky mas...o tamanho do copo, ainda por cima cheio fez-me pensar duas vezes, dei um trago e um amigo nosso francês que bebia gin como quem bebe água agarrou no copo e bebeu quase directo, entretanto enquanto íamos rindo, conversando, brincando alguns iam fazendo uns cachimbos de Kif que iam rodando pela malta, o Ahmed explicava ao Michel como se podia guiar pelas estrelas à noite no deserto, as direcções que devia tomar o Michel apesar de já estar mais para lá de Bagdad - como dizia o Hassan, estava muito atento a ouvir as explicações do Ahmed.

Eu falava com o Ibrahim e com o Mohamed de umas pistas novas que tínhamos de fazer junto à Argélia mais a Sul e das pistas que um amigo meu de Marraquexe o Abdjahlil - um ex-militar que tinha prestado serviço militar no Sul do país me tinha falado, bem a Sul entre Tantan e a Mauritânia, Mohamed é um grande amigo meu de Erfoud assim como o Ahmed e o Hassan, já vivemos experiências fantásticas no Saara foi com eles que aprendi quase tudo o que sei sobre o Saara, como enfrentar uma duna como me orientar à noite pelas estrelas como me orientar durante o dia foi com eles que explorei imensas pistas no deserto foi com eles que vivi aventuras mil.

Por isso me lembro agora aqui em Nairobi a milhares de kms dos meus queridos e grandes amigos, já faz tempo que não estou com eles Maria, já faz tempo que não nos metemos pelas pistas à aventura à descoberta de novos caminhos de sítios onde o homem nunca esteve, nem mesmo os nómadas!

Mas, estava a contar-te da despedida e já me estava a perder, então passado umas duas ou três horas talvez, ainda os djembes tocavam e quando um djembe toca tu também tens de tocar, entras no ritmo da música o teu corpo começa quase por instinto a entrar no ritmo que os teus companheiros tocam e por momentos parece que entras dentro da música, parece que estás a subir e descer dunas pela sua crista sem lhes tocares...ou seja, consegues colocar na música a aridez da paisagem, a suavidade das dunas a morfologia da terra. De repente sentímos vento vindo de Sul, em menos de cinco minutos levantou-se uma das maiores tempestades de areia de que tenho memória de viver no Saara, os amigos foram entrando nos jipes, eu fiquei cá fora com o Ibrahim ainda na conversa o vento e a areia eram de tal maneira fortes que eu sentia a areia nas costas como se pequenos alfinetes se tratassem, claro que entramos para dentro do jipe, lá fora não vias nada à distância de um metro...

Claro que tivemos de aguardar até a tempestade abrandar um pouco o que demorou quase uma hora...

É talvez a nostalgia e a saudade a falarem, não sei bem Maria. Tenho feito amigos, bons amigos pelos sítios por onde passo, amigos que não se esquecem e que não se esquecem de nós...tudo isto em viagem.

Hoje recebi um fax teu no Hotel, já apontei o número que me mandaste talvez te ligue...Estás meio meio por causa da partida dos teus companheiros de expedição é normal que assim seja, criam-se laços entre as pessoas são muitos dias juntos quase o dia todo e noite, é difícil depois, durante uns dias parece que falta algo a que já estávamos habituados. É um vazio que se cria, mas aqui em África, é sempre assim uns partem outros chegam acabamos por nos habituar vamos conhecendo muitas pessoas diferentes, de diversos países, mas todas elas têm algo em comum...este continente. Vê lá a Gillian até te convidou para o casamento dela e tudo, não te vai esquecer, acredita.

Se tudo correr como o previsto chego ai dentro de um dia ou dois, tenho de esperar aqui pelo irmão do Jumah para organizar bem a expedição destes clientes que chegam, para depois partir tranquilo para ai e descermos até a Zanzibar para descansarmos uns dias no Índico.

A cassete que te mandei pelo Biko da Rokia já não está em muito bom estado em parte por causa do calor, depois dou-te outra que tenho na minha casa perto do Ngorongoro quando tornarmos a subir a Tanzânia...

Maria hoje pensei em sair do Quénia durante dois ou três meses, preciso mesmo de ir ao Saara, percebes bem isso não é? Daqui a umas semanas podíamos partir, subíamos até ao Sudão, atravessamos o Chade e ficávamos uns dias no Deserto absoluto no Níger, viajávamos de noite por causa do calor e ficávamos nos oásis durante o dia...temos de pensar nisso...

Mas vou deixar-te digerires primeiro o Ngorongoro – um dos sítios mais belos do mundo como te disse. Ao ritmo africano porque como diz o meu grande amigo tuaregue "a pressa mata"...

Boa visita às plantações e manda um grande abraço ao Biko e ao Andwele não te esqueças!


Beijo
Bin

"You could feel the silence on your skin. There were no smells and no flies, which was remarkable in that part of the world."

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Conta-me um conto

A Maria e o Bin andam a contar um conto:


"Uma imagem um conto"

"Já sonho com Ngorongoro I"

"Já sonho com Ngorongoro II"

"Já sonho com Ngorongoro III"

Já Sonho com Nogorongoro III 1/2

Já Sonho com Nogorongoro IV




Comments:
Leio. Um instinto dominado, exalta-se, acorda em mim. Fico um bocado triste, porque de repente fico com a certeza de que segui todos os caminhos errados... Por outro, sinto-me feliz, porque alguém seguiu o instinto, seguiu o caminho certo!
 
Olá Isabela!

o que seria de nós se deixassemos a parte racional comandar o nosso destino, onde ficaria o sonho, o desejo, o instinto?

Tenho dentro de mim, um instinto por vezes...diria indomável e enigmático, tudo se resume a muito poucas coisas, o resto?

Bom, o resto é dispensável , se temos a liberdade e o amor, a saúde e o pensamento que precisamos mais para viver em harmonia connosco e com os que nos rodeiam?

As pessoas deviam libertar-se, sairem de dentro delas, exporem o que realmente pensam, sentem e desejam, eu acho.

Abraço,

Bin
 
Perguntas "o que seria de nós se deixassemos a parte racional comandar o nosso destino, onde ficaria o sonho, o desejo, o instinto?".
Ficariam em nada, e a nossa vida, embora possível, tornar-se-ia muito cinzenta e incompleta.
Se "temos a liberdade e o amor, a saúde e o pensamento" não precisamos de rigorosamente mais nada; mas para ter tudo isso é necessário não ter controlado exageradamente o sonho, o desejo, o instinto. E alguns de nós, em nome de um suposto equilíbrio, de uma suposta estabilidade, fizeram-no!
Eu concordo contigo em tudo!
Um abraço.
 
Tenho vindo a acompanhar estes contos e estou a adorar. É uma ideia excelente! Quem sabe se um dia não faço uma coisa assim... Parabéns aos dois meninos! Beijinho!
 
"Quem sabe se um dia não faço uma coisa assim..."

Vens para África Ananda? ;)

Obrigado pela crítica :)

bjs

Bin
 
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